Segunda-feira, Novembro 02, 2009

Tudo sobre minha mãe palestina


Depois do inclassificável Intervenção Divina (2002), o diretor palestino Elia Suleiman (um Buster Keaton contemporâneo) volta mais incisivo ao retratar a questão política Palestina/Israel e emociona profundamente pelo lado humano, ao contar a sua relação com a família, especialmente com a mãe, nesse excelente filme que, iniciando com o protagonista hoje, pegando um táxi para visitar a mãe, enfrenta uma tempestade no caminho e abre uma janela para contar a história da sua família a partir de 1948, com a criação do Estado de Israel e em saltos temporais nas décadas seguintes até os dias de hoje, mostrar, em tom de farsa e alegoria, com um humor ferino, fortemente visual, como nada muda, restando a nós, humanos (palestinos, no caso), continuar a viver pelo tempo que nos resta. Com forte herança do cinema crítico visual do francês Jacques Tati, Elia Suleiman faz um cinema que não se parece com nada hoje em dia. Construído como uma coleção de vinhetas, com negação do formal plano/contraplano clássico e uso incomum de planos frontais, além de uma visão brilhante da arquitetura visual dos espaços filmados e uso de ícones da cultura ocidental de massa (na trilha sonora, por exemplo, temos uma versão eletrônica de Staying Alive, dos Bee Gees), tudo resulta em um filme pop de imagens muito marcantes, mas Suleiman vai muito além, e quando a fita volta aos dias atuais, quando se consuma a visita do protagonista à sua mãe, O QUE RESTA DO TEMPO alcança poesia e dramaticidade pungentes, de levar às lágrimas. Ignorado na premiação em Cannes 2009 (e até criticado pela sua irreverência politicamente incorreta alfinetando a política israelense), é um dos grandes filmes de 2009. Não deixe de ver.

Por Fernando Vasconcelos
Cotação: ÓTIMO
Visto em 28/10 no Reserva Cultural

Deixa Ela Entrar revisto


A Mostra 2009 trouxe retrospectiva do cinema sueco, com filmes de Jan Troell e Hasse Ekman e sessões especiais de vários filmes com a presença dos diretores. Um deles foi o premiadíssimo DEIXA ELA ENTRAR, terror exibido na Mostra do ano passado que está em cartaz atualmente no sul e sudeste do país há cerca de um mês, leia crítica AQUI. Enquanto Recife aguarda a estréia do excelente filme de Tomas Alfredson, reassisimos ao longa em sessão especial com debate com o diretor após a exibição. DEIXA ELA ENTRAR não mudou do ano passado pra cá, continua sendo um dos mais doces, macabros, belos e tristes filmes sobre amor juvenil (e vampiros) que já vi, e cada vez que a assisto percebo novas nuances e detalhes que fazem o filme crescer ainda mais na minha cabeça.

Por Filipe Marcena
Cotação: ÓTIMO
Visto em 29/10 na FAAP

Domingo, Novembro 01, 2009

Vitalidade de um diretor aos 100 anos

Muita expectativa para o novo filme do produtivo diretor português Manoel de Oliveira, que ainda filma com 100 anos de idade, SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA, visto sentado no chão numa sessão lotada no shopping Frei Caneca. Quase um curta metragem na sua concepção e, de fato, com apenas enxutos 63 minutos de duração, o filme é uma pequena pérola de puro cinema, de uma graciosidade e linguagem cinematográfica irretocáveis, onde Manoel de Oliveira filma com domínio completo de jogo cênico, tempo e espaço, talvez só mesmo possível por ser um cineasta que viveu toda a história do cinema, tendo nascido em 1908. Filme é adaptação de um pequeno conto moral de Eça de Queiroz, sobre um sujeito de boa índole que se apaixona pela imagem de uma linda jovem loura que mora no prédio em frente ao seu escritório. Da paixão idealizada à decepção com o mundo real, o rapaz conta a sua estória em flashbacks a uma senhora que o ouve com atenção numa viagem de trem. Alguns momentos são simplesmente encantadores, irônicos e belos como o close que a câmera dá no sapato vermelho da garota no primeiro beijo ou a maravilhosa cena final. Nada de obra-prima, mas é cinema do bom, como os jovens cineastas atuais, sedentos por câmeras mirabolantes e montagem sem significado, parecem não saber fazer. Aprendam com o mestre, pois o cinema mais difícil de fazer é aquele simples, objetivo e inspirado. Na plateia, ao final da rápida sessão, pairou no ar uma sensação imediata de decepção. Mas Manoel de Oliveira faz um cinema que é maior que as nossas pobres críticas apressadas. E segue em frente: às vésperas de completar 101 anos, esse sujeito eternamente jovem de espírito, já está finalizando seu mais novo filme, O Estranho Caso de Angélica, e eu já estou esperando pra ver.

Por Fernando Vasconcelos
Cotação: BOM
Visto em 28/10 no Unibanco Arteplex

Sexo entre amigos


Ben (Mark Duplass) e Anna (Alycia Delmore) são um jovem e feliz casal médio americano. As estruturas se abalam quando Andrew (Joshua Leonard, de A Bruxa de Blair), amigo hippie da infância de Ben, resolve visitá-los. Numa festa "dionisíaca", surge uma bizarra proposta. A fim de participar do Humpfest, festival de vídeos pornôs amadores "artísticos", Ben e Andrew decidem transar como uma "prova de amizade" e para tentar ganhar a competição. Percebe-se pela quantidades de aspas que usei que O DIA DA TRANSA necessita muito de certo esforço do espectador para ter que funcionar. A situação toda é estapafúrdia demais para se engolir, e seria necessário um roteiro muito esperto para suspender a descrença do público. Não é o caso aqui. Por mais talentoso que seja o trio central de atores, poucos diálogos realmente convencem dentro da proposta, forçando a barra e a paciência de todo mundo. Até mesmo Ben chega a conclusão de que aquilo é tudo muito estúpido em certo ponto do filme, o que piora a sensação de frustração em relação à caretice e à falsidade filme. Talvez o problema esteja em Lynn Shelton, diretora que parece não entender muito bem as relações masculinas de amizade.

Por Filipe Marcena
Cotação: FRACO
Visto em 29/10 no Espaço Unibanco

Sábado, Outubro 31, 2009

Técnica excelente mas roteiro banal


Ficção científica em animação tem começo empolgante, usando uma técnica de colagens digitais a partir de fotos dos atores, com um efeito visual perturbador. Filme de produção sueca, METROPIA, falado em inglês, conta com atores americanos nas vozes como Vincent Gallo e Juliette Lewis. O filme se passa numa Europa de um futuro próximo, em 2024, onde a crise do petróleo conduz a um projeto de integração europeia via metrô. O governo controla os indivíduos através de um produto químico inserido nos shampoos, que possibilita ouvir as mentes dos cidadãos. O protagonista Roger começa a ouvir vozes na sua cabeça. Infelizmente, o roteiro repete ideias já muito vistas, de 1984 até Gattaca e Renaissance. O fiapo de trama tenta injetar suspense e ação que não funcionam muito bem. Mais uma vez, temos o previsível caso de técnica muito superior à originalidade do roteiro.

Por Fernando Vasconcelos
Cotação: REGULAR
Visto em 28/10 no Cine Bombril

Amor de mãe é foda! (2)


Aos 17 anos, o canadense Xavier Dolan escreveu, produziu, protagonizou e dirigiu EU MATEI A MINHA MÃE em pobre câmera digital. Depois de experiências frustradas com Apenas o Fim e Colin, filmes dirigidos por jovens cineastas, fui com os dois pés atrás pra sessão, mesmo sabendo do sucesso e da badalação no Festival de Cannes desse ano. Para a felicidade geral da nação, o filme é uma boa surpresa. A história gira em torno da relação de amor e ódio entre Hubert (o próprio Dolan) e sua mãe Chantale (a ótima Anne Dorval), dupla que não se entende de forma alguma. Além disso, Hubert iniciou recentemente suas experiências homossexuais. Os diálogos são escritos e interpretados com muita segurança e verossimilhança, impossível não reconhecer aquele tipo de relacionamento nas famílias modernas. Dolan encara o assunto com maturidade e um humor quase negro, encontrando soluções razoáveis para os entraves da premissa. EU MATEI A MINHA MÃE está longe de ser um filme perfeito (há vários momentos piegas e uma dispensável cena de sexo perto do fim que nada acrescenta), mas vale muito a visita, já que é uma das raras oportunidades de ouvir uma geração pouco comunicativa direto da fonte. Filme é candidato do Canadá para concorrer a uma vaga no Oscar do ano que vem.

Por Filipe Marcena
Cotação: BOM
Visto em 28/10 no Unibanco Arteplex

Dia de recorde do Kinemail na Mostra SP

Quarta-feira, 28 de outubro de 2009. Data histórica pro Kinemail: no sexto ano consecutivo no evento, foi esse o dia em que eu bati recorde de filmes vistos, 6 longas a partir de 10h da manhã até 1h da madrugada: METROPIA, O MENINO ERRADO, BRILHO DE UMA PAIXÃO, SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA, O QUE RESTA DO TEMPO e EU MATEI A MINHA MÃE. Umas dez horas de filme seguidos, sem tempo nem pra comer direito. Experiência estranha. Não recomendo. De qualquer forma, fica registrado o recorde.

Por Fernando Vasconcelos

Épico histórico sobre Ivan, O Terrível


Mostra de cinema é assim: na hora de escolher um filme, conta muito os horários disponíveis e as salas mais perto. No caso, escolhi ver CZAR no mesmo cinema que estava, logo após Sanson & Dalilah, o Reserva Cultural. E também por ser um filme do diretor russo Pavel Lounguine, do qual só conheço o bem bom As Bodas, exibido comercialmente no Brasil. CZAR foi destaque na Mostra Un Certain Regard em Cannes 2009 e é uma superprodução épica histórica, com direção de fotografia de Tom Stern (que trabalha com Clint Eastwood) prejudicada pela exibição aqui em cópia digital um tanto tosca. O filme conta um período da vida do czar Ivan, O Terrível, no século XVI, quando ele passou a ser aconselhado pelo seu amigo de infância Filipp, religioso que discordava de seu governo sanguinário. Se na produção luxuosa CZAR chega a lembrar até O Senhor dos Anéis, ainda é uma visão muito pessoal do diretor sobre o personagem, sem grandes preocupações com fidelidade histórica. Infelizmente, o filme é quadrado, convencional demais, do tipo que, dentro de uma mega mostra de cinema, deixa a impressão que você deve estar perdendo outro filme melhor naquela hora.

Por Fernando Vasconcelos
Cotação: REGULAR
Visto em 27/10 no Reserva Cultural

O brilho de Abbie Cornish


Retorno da diretora neozelandeza Jane Campion (O Piano) após o fraco Em Carne Viva. BRILHO DE UMA PAIXÃO narra o trágico romance entre o jovem poeta inglês John Keats e sua vizinha Fanny Browne no século 19. Não há nada revolucionário aqui, apenas um filme correto e bem realizado, já cotado para o Oscar do ano que vem nas categorias de fotografia e figurino. O verdadeiro destaque da produção fica por conta do casal de atores central, Ben Wishaw (de Perfume) e especialmente a australiana Abbie Cornish (de Candy e Stop Loss), excelente em sua composição e emocionante nas suas últimas cenas. A história de um amor puro, inocente e até mesmo infantil é bem contada, mas o roteiro não foge do lugar comum. Vale pelo apuro visual e por Cornish, uma boa aposta para o Oscar de melhor atriz.

Por Filipe Marcena
Cotação: BOM
Visto em 28/10 no Espaço Unibanco

O menino certo


Documentário do diretor israelense Nati Bartaz recebe título brasileiro que contradiz o título original O Menino Inequívoco (Unmistaken Child), 'o certo' e não 'o errado'. O MENINO ERRADO, todo rodado em pequenas vilas e povoados do Nepal, mostra a busca de um jovem monge budista de 28 anos pela reencarnação de seu Mestre falecido. Um ano após a morte do Mestre, ele procura crianças nascidas nas redondezas, para encontrar a possível alma reencarnada. A busca dura quatro anos, quando uma série de testes indicam ser um garotinho de uma modesta família camponesa o escolhido. Ficará sempre a dúvida se a escolha foi realmente certa, a alma reencarnada, pois não há confirmação científica, é apenas uma questão de Fé, comum a todas as religiões, o que confere sentido ao título nacional. Além de mostrar os rituais religiosos budistas, incluindo uma curiosa cerimônia de oferendas ao garoto, onde turistas dão brinquedos ocidentais modernos de presente, O MENINO ERRADO também acompanha o doloroso processo de separação do garoto de seus pais, que aceitam entregá-lo para a jornada de formação espiritual solitária nos templos, onde sequer poderá ser visitado pelos familiares durante o processo de aprendizado para continuar o trabalho espiritual do Mestre anterior. Filme belo e emocionante, onde a nossa 'distância ' cultural do Oriente sempre leva à reflexão.

Por Fernando Vasconcelos
Cotação: BOM
Visto em 28/10 no Espaço Unibanco

O tempo de Angelopoulos


Nunca tinha assistido a um filme do Theo Angelopoulos. Logo aproveitei a Retrospectiva do diretor na Mostra 2009 para assistir alguma obra do grego. Acabei pegando uma sessão especialíssima de seu mais recente filme, TRILOGIA II: A POEIRA DO TEMPO, que contou com a presença do homenageado. Simpático, ele recebeu um prêmio pelo cojunto de sua obra das mãos de um emocionado Leon Cakoff e nos introduziu ao filme. A POEIRA DO TEMPO desdobra-se em vários locais, línguas e tempos para contar uma fragmentada história de um cineasta americano de descendência grega (Willem Dafoe) que retorna a Roma em 1999 para concluir um filme interrompido anos atrás. O filme é sobre sua mãe Eleni (Irene Jacob), que atravessou vários momentos importantes da história mundial na segunda metade do século XX, e sobre seu romance com Spyros (Michel Piccoli), homem que sempre amou. O longa move-se num ritmo de lembranças, sonhos que se misturam e se confundem filmados com incrível rigor estético por Angelopoulos através de longos e elaborados planos-sequências, quase teatrais. É um cinema hipnótico, enigmático e complexo em seus significados. Angelopoulos é acusado de ser quadrado, e seus filmes recentes são hoje considerado por muitos como velhos e formalistas, o que não acho uma completa inverdade. Mas tendo em vista A POEIRA DO TEMPO, oras, seu cinema ainda é muito interessante.

Curiosidade: numa cena onde o personagem de Wilem Dafoe encontra no chão a imagem de um anjo pegando uma terceira asa (veja no cartaz acima), toca Lascia ch'io pianga' from 'Rinaldo de Handel, mesma música que inicia em encerra Anticristo, estrelado por Dafoe.

Por Filipe Marcena
Cotação: MUITO BOM
Visto em 27/10 no Cine Bombril

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

Visão poderosa do amor


SAMSON & DALILAH foi o filme escolhido pela Austrália para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro ano que vem. Forte concorrente. O filme acompanha a vida tediosa e sem perspectivas de dois adolescentes aborígenes num vilarejo perdido no deserto. Samson passa o dia cheirando cola e vadiando, imagem não muito distante de um menino de rua brasileiro, e Dalilah mora com a avó moribunda, vivendo de pequenos trabalhos de artesanato. Com a morte da avó, Dalilah foge com Sansom para a cidade grande. Com imagens belas, fotografia em cores quentes e chapadas, o filme de Warwick Thornton fala com as imagens, quase sem diálogos (lembrei de Walkabout, realizado por Nicolas Roeg nos anos 70) e faz uma poderosa descida ao inferno dos excluídos pela sociedade. Com atuações impressionantes dos jovens não-atores Rowan McNamara e Marissa Gibson, uso delicado de sons e música (uma canção ao final, de fazer chorar), SAMSON & DALILAH revela-se muito mais uma grande história sobre o poder do amor do que um discurso sobre desigualdade social e é um daqueles filmes cujas imagens ficam com o espectador por muito tempo, mesmo numa Mostra de Cinema onde se vê 4 ou 5 filmes por dia.

Por Fernando Vasconcelos
Cotação: MUITO BOM
Visto em 27/10 no Reserva Cultural

Quero Ser Paul Giamatti


Charlie Kaufman já fez escola. EU, ELA E MINHA ALMA, da estreante Sophie Barthes, é um filho direto do autor americano conhecido por escrever roteiros mirabolantes, como o do recente e ótimo Sinédoque, Nova York que foi exibido na Mostra no ano passado. Essa produção independente mistura conceitos de dois filmes do Kaufman em um: Paul Giamatti, que interpreta a si mesmo (Quero Ser John Malkovich) está frustrado com sua carreira de ator. Ele não consegue interpretar um difícil personagem de Tchekov e, a fim de atingir melhores resultados de atuação, decide extrair e armazenar sua alma através da empresa do Dr. Flintstein (Brilho Eterno, trocando as memórias pelas almas), interpretado por David Strathairn. Mas sua alma se perde e vai parar nas mãos de uma aspirante a atriz russa (Katheryn Winnick, idêntica a Scarlett Johasson) através do tráfico de almas e Paul busca a ajuda da traficante Nina (Dina Korzun) para recuperá-la. Giamatti tem alguns momentos engraçados e o filme tem uma ou outra sacada interessante sobre a sociedade moderna, mas é tudo muito deridativo e sem grandes novidades, perdendo a força da premissa com o passar da projeção. Barthes também peca ao desperdiçar seu elenco, especialmente Emily Watson, que pouco tem a fazer no filme como a esposa de Giamatti.

Por Filipe Marcena
Cotação: REGULAR
Visto em 27/10 no Cinesesc

Terça-feira, Outubro 27, 2009

Cinema mudo reconstruído

Da Áustria veio esse curioso experimento cinematográfico concebido por Gustav Deutsch. Baseado em textos de Safo, Platão e outros, FILM IST. A GIRL AND A GUN é uma colagem de dezenas de filmes mudos antigos (de 1890 à 1940) que ganham novos significados através da montagem e da trilha sonora. O filme é dividido em cinco partes: Gênesis, Paraíso, Eros, Tanatos e Simpósio, cada um guiado por textos específicos que aparecem em cartelas. As imagens, muitas vezes impressionantes, vão de vulcões e natureza à sexo explícito, nudez (inclusive imagens feitas pelo Instituto Kinsey nos anos 40) e cenas musicais, tudo com bom humor e ironia. É uma experiência diferente, sensorial e imagética, com uma mensagem convergindo para o eterno 'faça amor, não faça a guerra', num épico de imagens que celebram a beleza do corpo, do sexo, em oposição ao instinto destruidor do homem, encerrando com a emblemática cena do 'tiro no espectador' de The Great Train Robbery, de 1903, de Edwin S. Porter.

Por Filipe Marcena
Cotação: BOM
Visto em 27/10 no Cinesesc

Ang Lee vai à Woodstock


Depois de dois excelentes melodramas aclamados mundialmente, Brokeback Mountain e Desejo e Perigo, Ang Lee retorna com um filme menos ambicioso, também um drama, mas em tom de comédia e com parentesco com sitcom televisiva. Não que isso seja um defeito, ACONTECEU EM WOODSTOCK tem os bons elementos que cativam em telesséries, meio como o Quase Famosos de Cameron Crowe. Com muitos pequenos personagens engraçados e clichés dos anos 60, como o garoto que volta chapado do Vietnã (Emile Hirsch), um travesti ex-militar (Liev Schreiber, bizarro de vestido e peruca loira), um casal viajadão em Kombi com LSD (Kelli Garner e Paul Dano), o lendário produtor cultural Michale Lang (o novato Jonathan Groff, claramente homenageando o Treat Williams do Hair de Milos Forman), o filme se concentra na 'viagem' pessoal de um rapaz judeu, Elliot Teichberg (Demetri Martin), explorando sua sexualidade enquanto participa dos três dias do Festival de Woodstock e solta-se das amarras familiares, especialmente da mãe judia tradicional (a inglesa Imelda Staunton, caricata mas divertidíssima), proprietária do hotelzinho falido que vira de cabeça pra baixo com a chegada da multidão de hippies que estiveram em Woodstock. Ang Lee acerta no registro do evento, sempre com uma distância visual e emocional adequada e sem temer cenas de nudez e consumo de drogas (algo que o caretíssimo Across the Universe evitou radicalmente) e o filme, estranhamente, vai perdendo o tom de comédia e se fecha anunciando o desencanto e o fim da inocência da geração Woodstock, com o próximo grande show dos Rolling Stones em Altmont, onde ocorreu um crime brutal na plateia, com um rapaz assassinado pelos seguranças do Hell's Angels.

Por Fernando Vasconcelos
Cotação: BOM
Visto em 26/10 no HSBC Belas Artes

Segunda-feira, Outubro 26, 2009

A tediosa vida de um zumbi adolescente


COLIN já chegou na Mostra cheio de hype por ser um filme de zumbi feito por um jovem com apenas 70 dólares e uma câmera caseira. Bom, às vezes é melhor não acreditar no hype. COLIN basicamente é a história de um rapaz que virou zumbi num mundo devastado. Colocar o ponto de vista de um zumbi adolescente não deu certo, pois o filme é tédio total e nada de interessante acontece. São só montes de não-atores fingindo serem zumbis e rosnando como cachorros. E Colin andando pra lá e pra cá com uma insuportável trilha sonora que tenta tranformar o filme em algo assustador. O filme é tão irritante que dezenas de pessoas abandonaram a sessão na primeira meia hora, e não foi por medo. Só não classifico o filme como péssimo por causa do trabalho de som e montagem razoáveis, ainda que completamente subutilizadas. Filme tão sem vida quanto seu protagonista.

Por Filipe Marcena
Cotação: RUIM
Visto em 25/10 no HSBC Belas Artes

Um filme de Heath Ledger e amigos


Terry Gilliam, ex-integrante do Monty Python, seguiu uma carreira brilhante como diretor de cinema, sempre com filmes caóticos e rejeitados por parte do público e da crítica. Ele pouco se importa. Seus filmes, muitas vezes caríssimos, nunca renderam grandes bilheterias, como os fracassos Brazil, As Aventuras do Barão de Munchausen e Os Irmãos Grimm. Agora, depois do naufrágio de Contraponto, ele retorna com o mágico e desbocado O MUNDO IMAGINÁRIO DO DOUTOR PARNASSUS, fantasia que só Gilliam poderia realizar. Com seu estilo visualmente rico e narrativamente bagunçado, o diretor celebra a imaginação e o ato de narrar histórias através de um grupo de teatro mambembe liderado pelo Doutor Parnassus (Chistopher Plummer) e composto pelo jovem Anton (Andrew Garfield), pelo anão Percy (Verne Troyer) e pela filha do Doutor, Valentina (Lily Cole). Após uma apresentação fracassada, eles encontram um homem enforcado embaixo da ponte. O homem é Tony (Heath Ledger, em sua última e "incompleta" performance), desmemoriado e cheio de mistérios que, aos poucos, conquista o coração de Valentina. No meio da salada, o Doutor Parnassus ainda deve pagar uma dívida ao Senhor Nick (Tom Waits), a encarnação do diabo. Gilliam faz aqui um dos filmes mais criativos, divertidos e politicamente incorretos de sua carreira, sempre aproveitando para alfinetar o cristianismo, o consumismo e o moralismo, com muito bom humor. O MUNDO IMAGINÁRIO DO DOUTOR PARNASSUS conta com excelente design de produção, com muitas tomadas em locação e efeitos artesanais, utilizando CGI apenas quando necessário. E, claro, também conta com um ótimo elenco. Christopher Plummer e Tom Waits se divertem à beça como personagens antagônicos e Andrew Garfield e a bela Lily Cole revelam-se atores promissores, enquanto o sempre hilário Verne Troyer quase rouba a cena. Mas quando se fala em O MUNDO IMAGINÁRIO DO DOUTOR PARNASSUS, tem que se falar de Heath Ledger. Com perfeito timing cômico e ótimos improvisos, ele aparece em 50% do filme, as únicas cenas não realizadas por ele são as que se passam dentro do espelho e que envolvem efeitos digitais. Para completar as lacunas, foram convocados Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell, cada um com uma seqüência do filme. É impossível não perceber a forma que o roteiro tentou driblar o incidente, e as caras famosas sempre tiram a atenção do filme quando aparecem, mas não deixa de ser uma bela homenagem ao falecido ator australiano.

Por Filipe Marcena
Cotação: MUITO BOM
Visto em 25/10 no Espaço Unibanco Pompéia

Amor de mãe é foda!


O brilhante coreano Bong Joon-Ho vem firmando-se como um cineasta que sabe ser profundo, perturbador e inteligente sem abdicar do senso de diversão. Cinema 'sério', cinema 'pipoca', esses rótulos viram de cabeça pra baixo nos filmes de Bong Joon-Hoo, como os inclassificáveis Memórias de um Assassino (parecido com Zodíaco) e O Hospedeiro, talvez o melhor 'filme de monstro' já feito. Nesse MOTHER, o registro é de suspense e policial, mas esqueça os rótulos, pois também temos comédia e melodrama vigoroso, de emocionar. Uma senhora idosa vive com seu filho retardado, Do-joon, completamente dependente dessa mãe aos 27 anos, com comportamento infantil e ingênuo. A vida deles muda bruscamente quando acontece um assassinato brutal de uma garota num prédio abandonado. Do-joon é o principal suspeito, confessa o crime e é preso. A partir daqui, sem falar muito para não estragar as surpresas, a mãe mergulha numa investigação solitária e desesperada para provar a inocência de seu filho. Com apuro visual fantástico, filmando em espetacular tela larga, o filme impressiona por descer fundo nas profundezas psicológicas do sempre intrigante 'amor de mãe', com reviravoltas que te prendem na poltrona e ao mesmo tempo te fazem pensar sobre essa complexa relação ancestral, afinal, mãe, todo mundo tem uma! Surprendente a cada novo filme, Bong Joon-Ho é cineasta atual de primeiro time. Last but not least, no papel da mãe, a atriz Hye-Ja Kim está inesquecível.

por Fernando Vasconcelos
Cotação: ÓTIMO
Visto em 24/10 no HSBC Belas Artes

Linda relação entre pai e filha


Na tradição atual de tantos filmes sobre a Europa dividida, a dos pobres e a dos ricos, a francesa Claire Denis (Desejo e Obsessão) realiza um dos mais belos filmes nesse tema. Mais que um painel social, o filme privilegia o delicado relacionamento entre um pai e uma filha, imigrantes negros que moram numa região industrial da França. Lionel, o pai, é condutor de trem e a filha, Josephine, estudante. No mesmo prédio, típico condomínio para excluídos, moram uma senhora taxista, que parece ter um caso com Lionel e o jovem Noé, um ex-namorado de Josephine. Todo construído com mais silêncios do que diálogos, o filme é conduzido com elegância narrativa jazzística e é surpreendente como o ambiente e a cultura dos personagens fogem do modo como vemos imigrantes no cinema. Apesar de limitados financeiramente, eles são cultos, moram em apartamentos simples mas bem mobiliados, com estantes cheias de livros, vestem-se bem, têm sofisticado gosto musical etc. Tipo do filme com pouca ação e onde vamos entendendo aos poucos quem são os personagens, 35 DOSES DE RUM (descobrir o significado do título é um dos charmes da fita), faz referências sutis ao clássico Pai e Filha do mestre japonês Ozu e, numa sequência bela e emocionante, passada num bar onde os quatro personagens dançam ao som da magnífica canção Night Shift, de Lionel Ritchie, temos um daqueles momentos clássicos de uso de trilha sonora no cinema, que Quentin Tarantino não faria melhor. Melancólico, humano, doce mas nunca melodramático, 35 DOSES DE RUM é a primeira pérola imperdível dessa Mostra SP.

por Fernando Vasconcelos
Cotação: ÓTIMO
Visto em 24/10 no CineSesc

A família moderna


ANDER é um homem solitário que mora com a irmã e a mãe numa fazenda em Basque, Espanha, em agosto de 1999. Homossexual enrustido, Ander passa seus dias ordenhando vacas, cuidando da horta, alimentando porcos e saindo na companhia de seu amigo Iñaki e da prostituta Reme, enquanto sua mãe questiona a sua dificuldade em encontrar uma esposa. Um dia ele se acidenta e quebra a perna, ficando imobilizado na cama. É quando a família contrata o jovem peruano José para trabalhar na fazenda e cuidar de Ander, levando ao despertar de sentimentos há muito tempo reprimidos. O filme é espanhol, mas poderia facilmente se passar no Brasil, ao abordar uma família tradicional e rígida do interior que, ao poucos, modifica-se com a chegada do novo milênio. O diretor Roberto Gastón deixa sua marca no filme, com um belo trabalho de câmera na primeira hora do filme para logo depois deixá-la invisível, privilegiando os personagens e diálogos e também conduzindo uma experiência temporal bem interessante. Outra coisa boa é que ANDER afasta qualquer tipo de clichês gays, tanto Ander quanto José são homens comuns, mais próximos do padrão de comportamento heterossexual, como os personagens de Brokeback Mountain, e até mesmo a amiga prostituta é tratada sem clichés.
Filme é apenas um pouco longo, pouco mais de duas horas, mas vale ser descoberto. Produção espanhola pequena, com atores desconhecidos, é o tipo de filme que talvez só tenhamos chance de ver na tela grande numa mostra diversa e farta como esta.

por Filipe Marcena
Cotação: BOM
Visto em 24/10 no Frei Caneca Unibanco Artpelx

Domingo, Outubro 25, 2009

Zooey e Joseph dão charme a filme fofinho


500 Dias com Ela foi a sensação indie no verão americano desse ano. Não podia ser diferente: romance entre casal jovem, bonito e meigo que tenta lidar com as diferenças no relacionamento, piadas engraçadas, montagem moderninha não-linear, trilha feita pra agradar o público-alvo (Smiths, Pixies, Simon & Garfunkel, Feist) e etc. Apesar de já chegar embalado e rotulado num pacote pseudo-independente, o filme sobrevive ao hype graças à sinceridade (e até certa crueldade) com que discute os relacionamentos, ainda que de forma pop. Destaque fica com o casal de atores Joseph Gordon-Levitt e Zooey Deschanel, ele competente como de costume, ela incrivelmente linda e cativante no seu melhor papel.

Por Filipe Marcena
Cotação: BOM

Minha expectativa era alta para 500 Dias Com Ela, especialmente pelo casal protagonista, Joseph Gordon-Levitt e Zooey Deschanel, e eu pensava que ia ver um novo Antes do Amanhecer, um filme simples e sincero sobre primeiros relacionamentos amorosos. O filme de Marc Webb (diretor de vários videoclipes em seu primeiro longa) tem essas qualidades, mas prefere um formato de sitcom, com frases de efeito, montagem descontínua e outros tiques pop para contar uma história de amor que não deu certo. Ele queria ser arquiteto mas trabalha como escritor de cartões de felicitações. Lá conhece a nova funcionária da empresa, uma linda garota com quem tem afinidade musical imediata através do The Smiths. O namoro rola e dura os exatos 500 dias do título, com altos e baixos graças a ela, cética, dizer que não acredita em amor e não prometer nada para ele. Citações bacanas a Curtindo a Vida Adoidado e A Primeira Noite de um Homem estão entre as boas sacadas pop mas o filme não me convence do relacionamento contado e só não é mais um romance esquecível pela fofura do casal central e pelo final até realista, longe do happy end previsível.

Por Fernando Vasconcelos
Cotação: BOM
Visto em 23/10 no HSBC Belas Artes

Loach mostra outro ângulo do futebol


O carteiro de meia-idade Eric (Steve Evets) vive uma fase atormentada de sua vida. Sua família está em crise, sua segunda esposa sai da prisão mas não volta pra casa e seus enteados vivem procurando problemas. A situação começa a mudar quando o espectro do ex-jogador do Manchester United Eric Cantona (interpretando a si mesmo) faz visitas frequentes a Eric, tornando-se uma espécie de conselheiro do carteiro. O britânico Ken Loach (que está no Dicas de Cinéfilo com seu segundo filme Kes) mostra em À PROCURA DE ERIC o que há de bom no esporte mais cultuado do mundo. Eric usa a imagem heróica de seu jogador favorito como motivação para organizar sua vida e, como entrega o título, encontrar a si mesmo. Ao mesmo tempo, existe a união afetiva dos personagens através do futebol, e isso fica destacado em cenas bem humoradas e às vezes emocionantes em que o grupo se ajuda em conjunto. Apesar do tom pesado e cru, o filme é bastante cômico graças à relação de Eric com seu mentor e com seus amigos, e os ótimos atores navegam entre o drama e a comédia com facilidade, inclusive Eric Cantona. Um filme sobre superação sem os clichês desse tipo de história.

Enquanto a sessão de À PROCURA DE ERIC estava lotada, na barraquinha da esquina o filme já se encontrava disponível em DVD pirata, assim como vários outros filmes que ainda nem entraram em cartaz. A forma que a Mostra encontrou para atrair o interesse dos fãs de torrent e emule foi disponibilizar filmes da Mostra desse ano para download, ao menos para os 300 primeiros que pedirem autorização, incluído na lista o pernambucano Um Lugar Ao Sol. Descubra mais em http://www.mostra.org/.

Por Filipe Marcena
Cotação: BOM
Visto em 23/10 no Unibanco Arteplex